Dia Internacional das Mulheres e Raparigas na Ciência
São quatro nomes a ter em conta na ciência feita em Portugal. São quatro nomes no feminino e agora “embaixadoras” da investigação nacional. Neste Dia Internacional das Mulheres e Raparigas na Ciência, recordamos os exemplos das investigadoras Ana Rita Lopes, Céline Gonçalves, Paola Alberte e Patrícia Henriques, vencedoras da 21.ª edição das Medalhas de Honra L’Óreal Portugal para as Mulheres na Ciência.
Ana Rita Lopes
Começamos por Ana Rita Lopes, natural de Leiria e investigadora do MARE – Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa. Dedica a sua carreira de investigação, desde o início, ao estudo de temas como a poluição e as pressões climáticas. O prémio conquistado decorreu da busca pela resposta à questão: “De que modo o aquecimento do oceano e a poluição afetam as relações de cooperação que existem naturalmente entre as anémonas e os peixes e invertebrados marinhos?”.
O objetivo da investigação realizada passa por perceber até que ponto as relações mutualistas que unem diferentes organismos marinhos resistem quando confrontadas com dois fatores cada vez mais presentes no oceano: as alterações climáticas e a poluição por contaminantes, incluindo resíduos de fármacos humanos detetados na água.
Ao longo do seu percurso científico, Ana Rita Lopes tem-se dedicado a analisar a forma como a poluição e o aquecimento e acidificação dos oceanos influenciam a fisiologia e o comportamento de várias espécies de peixes, observando aspetos tão distintos como o sucesso reprodutor ou a capacidade de fuga a predadores.
Ana Rita Lopes tem 36 anos, é casada e mãe de dois filhos muito pequenos, o que torna ainda mais exigente o equilíbrio entre a vida familiar e a sua carreira científica. Apesar dos avanços que Portugal tem feito na promoção da equidade de género, Rita reconhece que ainda há desigualdades claras, sobretudo nos cargos de liderança. Fala de “barreiras invisíveis” que persistem: desde o peso acrescido das responsabilidades familiares, que continuam a recair maioritariamente sobre as mulheres, até à forma como o desempenho científico é avaliado, com métricas que raramente acomodam pausas ou exigências associadas à maternidade.
Céline Gonçalves
Outro exemplo inspirador é o de Céline Gonçalves. Depois do mar, passamos ao cérebro, e a uma das perguntas mais desafiantes da neuro-oncologia: será possível detetar o glioblastoma, o tumor cerebral maligno mais agressivo em adultos, apenas através de uma análise ao sangue? No Instituto de Investigação em Ciências da Vida e Saúde (ICVS) da Universidade do Minho, em Braga, Céline Gonçalves procura respostas em pequenas vesículas libertadas pelas células, incluindo as tumorais, cada uma carregando pistas sobre o seu estado: uma espécie de mensagem molecular que circula discretamente no sangue.
O que Céline Gonçalves quer fazer é identificar a “assinatura” própria do glioblastoma: uma combinação única de moléculas que permita reconhecer o tumor sem margem para dúvidas. Para isso, vai comparar as vesículas presentes nos tumores com as que circulam no sangue de pessoas com glioblastoma.
Céline Gonçalves, investigadora e professora no ICVS, é doutorada em Ciências da Saúde e mãe de uma bebé de oito meses. Reconhece que a maternidade continua a ser um desafio nas carreiras científicas, especialmente quando o ritmo dos projetos e das publicações não abranda. E lembra que, desde cedo, as mulheres continuam a enfrentar estereótipos de género que moldam oportunidades e perceções no meio académico.
Paola Alberte
De Braga passamos a Lisboa, mas com sotaque galego, para conhecer Paola Alberte, Investigadora do iBB, Instituto Superior Técnico, Universidade de Lisboa, que quer usar eletricidade, mas numa escala quase inimaginável: para travar o crescimento de tumores. Todas as células do nosso corpo comunicam através de atividade bioelétrica; nas células cancerígenas, essa atividade apresenta padrões anómalos que favorecem a multiplicação e a invasão. Paola Alberte acredita que é possível “desligar” estes sinais anormais e, assim, travar o avanço do cancro.
O trabalho de Paola Alberte aposta no desenvolvimento de sistemas nanobioeletrónicos capazes de serem ativados a partir do exterior do corpo, através de ultrassons: uma abordagem tão futurista quanto promissora. Testes com células de cancro da mama mostraram já que um destes sistemas reduziu o crescimento tumoral e induziu a morte das células doentes, mantendo as saudáveis intactas. Ensaios em modelos animais confirmaram igualmente uma redução no tamanho dos tumores.
Estes resultados promissores abriram caminho ao projeto WireCan, agora distinguido, que pretende alargar esta tecnologia a diferentes tipos de tumores, incluindo o glioblastoma, um dos mais agressivos. A ambição não fica por aqui: a equipa quer também testar aplicações em doenças como a de Parkinson, em colaboração com parceiros nacionais e internacionais.
Paola Alberte, doutorada em Farmácia pela Universidade de Nottingham e hoje investigadora no Instituto Superior Técnico, sublinha que a perspetiva feminina acrescenta equilíbrio às equipas. Apesar de nunca ter sentido barreiras diretas pelo facto de ser mulher, reconhece que muitas investigadoras enfrentam obstáculos adicionais, sobretudo pela maior carga associada à vida familiar. E lembra que o número de mulheres doutoradas continua a não estar refletido nos cargos de topo.
Patrícia Henriques
O último exemplo que apresentamos para assinalar este Dia Internacional das Mulheres e Raparigas na Ciência está no Porto. Patrícia Henriques é Investigadora do i3S, Universidade do Porto, e cofundadora da start-up GOTECH Antimicrobial, que está a transformar uma ideia simples – impedir infeções em cateteres usados em hemodiálise – numa solução com potencial revolucionário para milhões de pessoas. O dispositivo que desenvolve, a GOcap®, combina luz próxima do infravermelho com óxido de grafeno para desinfetar o interior dos cateteres de forma segura, eficaz e sem recurso a antibióticos. Uma abordagem inovadora e com impacto ambiental positivo, já que a GOcap® é reutilizável e pretende reduzir resíduos plásticos.
Mas há mais: embora se conheça o potencial antimicrobiano do grafeno ativado por luz, os seus mecanismos de ação ainda não estão totalmente esclarecidos. Patrícia Henriques quer aprofundar este conhecimento e avaliar, por exemplo, se existe risco de desenvolvimento de resistência bacteriana. Ao mesmo tempo, prepara todos os passos necessários para levar a tecnologia dos laboratórios aos hospitais: desde a otimização do protótipo aos ensaios de validação clínica, passando por um plano de negócio robusto. O objetivo final do seu trabalho é claro: reduzir infeções, salvar vidas e oferecer uma alternativa sustentável e eficaz às estratégias tradicionais de desinfeção.
Patrícia Henriques, doutorada em Engenharia Biomédica na Faculdade de Engenharia da Universidade do Porto, lembra que as mulheres continuam a enfrentar desafios acrescidos na passagem da investigação para o empreendedorismo tecnológico. Questões como angariação de financiamento, estabelecimento de parcerias ou conquista de confiança de stakeholders continuam, muitas vezes, condicionadas por um ecossistema ainda dominado por perfis maioritariamente masculinos.
Estes são quatro nomes da ciência que se faz no feminino em Portugal, que demonstram que o talento e a dedicação não conhecem barreiras de género. Na celebração do Dia Internacional das Mulheres e Raparigas na Ciência, agradecemos o seu testemunho e o trabalho que desenvolvem diariamente, que certamente continuará a ser distinguido no panorama da investigação nacional e internacional.